Mário Soares deixou em Barcelos, no passado sábado à noite, uma mensagem de esperança, ao terminar a sua palestra afirmando que, hoje, "caminhamos para uma aliança de civilizações". Apesar de existirem muitos conflitos regionais, lembra que o mundo caminha há décadas sem uma guerra mundial
Tendo sido convidado para abrir a iniciativa na qualidade de Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, e falando sobre o tema, Soares entende que "no mundo de hoje, os conflitos religiosos não têm razão de ser".
"Tirando o fenómeno novo do terrorismo Islâmico, que é um fenómeno mais político do que religioso, as grandes religiões estão a abandonar o fanatismo, que gera crueldade e intolerância, e a abraçar o diálogo inter-religioso, o diálogo entre crentes e não crentes e o respeito pelos direitos humanos e da tolerância", acrescentou.
Mesmo perante a insistência das perguntas do público, Soares admitiu que o mundo "está perigoso", mas que a "insegurança não é assim tão ténue".
O mundo Ocidental tem que coexistir com o mundo Islâmico: "Ninguém tem que ceder nas suas ideias. Não é preciso haver conflito por terem ideias diferentes", e deu como exemplo o Irão onde, apesar da situação "muito difícil", concorda com o Presidente Obama, de que tem que se resolver o conflito pela via da negociação.
Antes de abordar estas questões, Mário Soares já havia dado uma autêntica lição de história das relações entre as religiões e os Estados, centrando-se no caso Português. Recordou o seu papel, após o 25 de Abril, quando na qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros evitou os "erros" da 1ª República: "Procuramos não hostilizar a Igreja e chegamos a defender o Patriarcado".
Soares considera que nos últimos 35 anos não houve grandes conflitos entre a Igreja e o Estado, que deve respeitar a laicidade.
Um agnóstico filho de um padre
Mário Soares deu uma aula
Mário Soares é assumidamente agnóstico. Uma posição tomada desde rapaz, o que é mais curioso, já que é filho de um padre Franciscano. Foi o seu nascimento que levou o seu pai a pedir ao Vaticano a dispensa dos votos sacerdotais para casar pela Igreja com a sua mãe, para que Mário Soares não fosse "filho das ervas". Um processo que levou anos, pelo que só foi "legitimado" lá por volta dos seus sete anos de idade.
Esta foi uma das histórias que Mário Soares contou, como só ele sabe, a uma plateia absorta nas suas palavras e que o ouviu uma autêntica aula sobre o papel das religiões durante duas horas.